terça-feira, 30 de setembro de 2014

Lua Morna

Neste fim de tarde, morna está a lua
Fatigada de ilusões e romantismos
Parece dizer-me que não sou tua…
À revelia dum inesperado aforismo,
Quase me esqueci que te espero…
As árvores deixam cair suas folhas
Como um combate renovado
Assim está minh´alma despida,
Descrente duma luz fulgurante
O nosso mundo, quimera inusitada
Não impede, por mim, que eu peça
Ao rouxinol para te segredar o meu amor
Infinito e puro como o batismo dos poetas
Procurarei as cores e o seu Pintor
Perscrutarei os desenhos que nos dizem
O que as cores escondem…
Encontrarei a tua face, os teus olhos
Beijarei a tua boca…
Serás para sempre o Vulto do Amor,
Quando depois do Amor, nada mais vem!
Serás Primavera nos Invernos, Sol, Lua,
Chuvas e as madrugadas que batem à minha janela.

Ofélia cabaço

2014-09-30

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Os Sonhos...

Os sonhos revestem a minha vida,
Que seria de mim sem sonhos?
Não os desejo realizáveis…, pois
Perderiam a sua essência;
Às vezes, sinto, sonhando acordada,
Que uma chama quase cinza, esquecida
Bem no fundo da minh´alma, cintila,
Ilumina e veste com rubros botões
A razão da minha vida…
Os sonhos não se ensinam,
Não têm arquétipos…
Porque não se contam a ninguém,
Se contássemos não seriam só nossos
Os sonhos…
Vagueiam na minha consciência, e,
Nas noites sofridas cheiram a alecrim,
Jasmim e açúcenas...,
Afastam de mim o mundo da dor,
Dos medos e da solidão, os sonhos!
A alma dos meus sonhos é a minha alma
Deixa-me ser eu, liberta como as águas
Das nascentes…;
Ajuda-me a correr com o vento e a beijar
A terra,
Exclui-me do mundo das marionetas
E deixa-me ser eu, lava, mar e rocha…

Ofélia Cabaço
2014-09-25

Angústia do Existente para o Inexistente,

Angústia do Existente para o Inexistente,

Sinto uma angústia maligna que me aconselha incessantemente e me obriga a pensar na existência das coisas, onde se inclui o meu “eu” com apreensão doentia.
Faço um percurso aos primórdios do que nunca vi, mas senti, na perspetiva de encontrar um finito que me leve ao infinito, nalgum lugar do universo e onde, lá mesmo, uma voz possa dizer-me algo que me alivie…, um abraço, mesmo que abstrato, me aperte, me oiça e com alguma sumptuosidade impeça a angústia de me aconselhar uma rutura com o existente, um aconchego ao inexistente!
-Depois, desejo encontrar o Pobre de todos os pobres, e dizer-lhe baixinho, assim, sussurradamente, que O amo e que choro, e choro, e volto a chorar, porque o meu sorriso se impõe, somente, quando oiço as crianças, quando escuto a natureza e quando olho os pomares pintados de flores e frutos… tão doces e coloridos…
-Mas o mundo não é somente uma “parte”, existem partes algures, por aí, onde as crianças não sabem sorrir, não podem ouvir a natureza, nem o nascer das madrugadas na sua plena magia, tampouco o canto das aves, nem o que são pomares de frutos saborosos;
Escutam aquelas crianças, o medo…, somente o medo, e só isso, as fazem perceber que existem……, sentem a angústia do que não sabem que existe neste mundo de natureza tão ampla… as crianças que nada têm e carregam a angústia da sua existência, desesperadamente…
Dizem que o mundo pertence aos pobres, e são os pobres que impedem a nobreza dos espíritos, porque de tão pobres, só sabem o que é mandar destruir a nobreza do verdadeiro homem…

- Queria tanto sorrir e contemplar com ênfase este pomar colorido que é a Vida de todos os homens.

Ofélia Cabaço

2014-09-26
  


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Memória

Perscruto o “eu” de mim…
A consciência volitiva apela à minha memória
Com ligeireza de arroio e sorriso tranquilo,
Sinto e revejo a minha história….
…Ondas batidas pela fúria do mar
Uvas e silvas, figos e catos
Tão pequenina a minha mão!
Brinco com hortenses azuis,
Imagino uma porta no horizonte
Que disfarçada de deus terreno
Ilumina o meu espírito nas tardes cálidas
E modela o meu coração de menina
Com expressão de Ventura e Justiça
Alma minha com miríade de existência
Alimentada com favos de mel
E onde a dor se acomoda teimosamente…
A minha história…
A solidão e o silêncio a meu lado,
Nos céus fadas brancas correm, e,
De um lado ao outro, cavalos e palácios…
E eu, tão pequenina!
Sentada no alpendre de minha casa
Entretida com sonhos e quimeras…
A minha história….

Minha consciência já com rugas
Deleita-se com liberdade e transparência,
Tranquilamente me chama e sorri,
E o vento e a chuva e o Sol e a Lua,
Sussurram ao meu ouvido a Paz eterna!

Ofélia Cabaço - 2012-09-12