quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Naquele cerrado vestido de brancas flores
Floresceu o grão com outros da mesma cor,
Solo vermelho e coração, terra criadora
Confiou o semeador,
Deixou semente e seus odores
E, grãos nasceram a rigor
Com grandes ilusões…

Aquele grão e a sede,
Aquele que ninguém alombou
Esquecido…
Empurrado pelas nortadas, sitiava o cerrado
Alacridade no deserto que o desertou
Semente brotou!
E flores alvas nasceram…
Em cada flor procurou um rosto,
Um prazer reposto…

Faces caídas sob um velado luaceiro
Encontrou…


Ofélia Cabaço
2015-09-11








segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Desânimo

Metade de mim é ânimo e vontade e amor,
É o acordar em cada madrugada
É aplaudir a Natureza e a Vida
É sentir-me comovida,
Agradecida…

De mim outra metade é angústia
Toda uma intuição desmoralizante
Inibidora, inquietante,
Um invólucro na coroa dos meus sonhos
Anseios…
Metade de mim é chuva
Torrente que me obriga enamorar a morte
São os suspiros do vento que me alentam
As airosas madrugadas,
O pio das aves que me encanta
As águas das nascentes a correr, incessantes…
É o rumorejar das folhas numa despedida breve
Que me despertam…

É o sorriso das crianças que me afasta o choro,
E a Vida que me chama…

E a metade duma metade impera
Na ambiguidade do que me espera,
A outra metade é apenas metade
Duma tola tempestade…

Ofélia Cabaço
2015-09-07




sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Hei-de Partir um dia...

Contemplei o mar
Quis voar ao mistério e aos céus
Caravela com asas armar
Eu quis…
Contigo em alado subir além do pensamento
Hei-de um dia partir…
O mar, planície malva, imensa,
Tão vasta de segredos e deuses
Em noites de ausente claridade
Assaltam-me presságios…
Em igualdade crueldade, naufrágios!
E o mar assiste aos tombos do meu espírito
Uníssono som que me enlouquece,
Me entontece!
Fala-me como se falar fosse barulho
Nada me diz, nada se me espelha…
Nem as lágrimas que choro,
Somente sinto a Natureza que adoro
Hei-de um dia partir…
Falou-me há anos muitos,
Esquecida de mim, nada recordo,
Talvez sejam apenas mitos…
Só sei que minh´alma está descrente
De tudo o que fui crente…

Ofélia Cabaço
2015-08-07



quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Repoisa a Tarde,

Inda a tarde preguiçosamente repoisa
E a noite que não veio àquela hora,
Insinua-se languescente, mansamente…
É oiro e cor o entardecer, agora
Meus queixumes não oiço,
Serena, minh´alma sorri…

Ouvem-se serenatas de pássaros sem poiso
Papoilas nos campos debruçadas
Da morna tarde fatigadas
Anseiam com agonia o luar
E a brisa volúvel a beijar…
O luar com véu furta-cores, ilusões
Que se escondem nos corações
Com carícias que não ouso
Inda a tarde repoisa…
E o poente de ouro e cereja
Se despede!
Hora crepuscular, assim seja
A noite p´los caminhos…

Ofélia Cabaço
2015-07-06


domingo, 2 de agosto de 2015

Consciência de Mim

Minha consciência
De natureza infinita
Nos meus dias experiência
Porque no meu íntimo nada é finito
Penso, e nada seria sem essa faculdade
Pensando sou eu, tu e a Natureza
E porque quero amar-te consigo,
Tu és o fim do meu amor com leveza,
Razão e o caminho que persigo
Injustamente utópica a minha vontade
Nela persiste ilusão verdadeira
Porque a sinto de mim, essência;

Não sou poeta tonta, nem derradeiro
Meu entendimento…
Quero ser água e transparência
Onde minha imagem tem encanto

Ser o que sou rejeitando a mentira
E como Tétis, viver oceanos, tocar os céus
Voando Liberdade…

Ofélia Cabaço
2017-08-02







sexta-feira, 31 de julho de 2015

Filantropo

Os deuses ergueram um templo para ti,
Homem filantropo que honras a Natureza
Campos férteis e tua alma virtuosíssima
Erguem hino ao Além…

Represa sublime é o teu coração
Em cada campo florido, em cada pomar
De sabores e cores a perfeição dum altar,
Teu espírito, invólucro do fogo e do Belo, aquém
Metáfora com bruma rosácea, oh! Homem filantropo
Peristilo aberto à cidreira, alecrim e perfumes
Como os jardins de Perséfone

Quando os campos são inférteis,
E a aridez devastadora,
Inundai a tua represa para que os lírios nasçam…

Ofélia Cabaço
2015-07-31




quinta-feira, 30 de julho de 2015

Meditei

Numa gigante pedra junto ao rio
Sob um firmamento escarlate
Sentei-me e meditei em murmúrio
Em volta de mim, um cheiro odorífico
Meu espírito elevado para caminhos floridos de primaveras,
Com os olhos fechados imaginei pictoricamente
Um ilusório Mundo e adoráveis matizes, quimeras…

E minh´alma gizando meus sonhos,
Anelo que em nada foi deveras
Pensamentos merencórios, receio constante,
Como constante era a espera dum amanhecer amargo
Continuadamente e … demoradamente,

Pensei querer despir minhas vestes de melancolia
Princesa, não queria ser…
Antes camponesa jovial e feliz,
Rezei e revi a tragédia de Cristo, o seu drama,
Firmei meus olhos na pedra e comovida disse-lhe:
Não há tragédia que se lhe compare!

Deixei fluir meus pensamentos com as águas
Límpidas daquele rio que me escutou…

Ofélia Cabaço
2015-07-30