segunda-feira, 30 de março de 2015

Contemplação

As árvores dançam voluptuosas
Cantam com o suave vento primaveril,
Estação despida e não menos formosa
Descontente ela anseia o Sol viril,
Magnificente …
Paragens verdes com vinhas a florir
Prados onde papoilas vermelhas ondulam
E viçosos milheirais se erguem ao firmamento,
Planícies e montanhas exultantes à luz dos astros
Até que a aurora acorde serena, apaziguadora
Na frescura e envolvência da cor pérola
Como é imenso o movimento no Universo
 Regulamento do Sentido para os sentidos…
Comove corações que escrevem versos
Compleição poética e a beleza exuberante
Com adoráveis matizes e jardins plácidos
Como deuses vestidos de pureza, Natureza
Florescimento de sementeiras, terras e templos;
Montanhas cobertas com mantos cor d´ameixa
Sob um auricerúleo evolutivo ao entardecer…
Contemplação pujante de cores e cantos
Poesia que embala meus dias e não me deixa
Declamando a minha sina a cada canto
Sinfonia harmoniosa de aves aos bandos
E onde não existe voz que perturbe a minh´alma…
Apenas a primavera e o vento no silêncio costumeiro

Ofélia Cabaço
2015-03-30
  








Virgem Maria


Pedi à Virgem Maria para me proteger,
Ajoelhei-me, rezei e desejei sua filha ser,
De rosto resplandecente Ela sorriu!
Sussurrou-me que o seu amor era imenso,
Trazia no peito uma cruz de madeira,
Túnica alva vestia e na cabeça coroa de incenso,
Em suas mãos poisavam flores de amendoeira
Não usava meias de seda…
Nem sequer sapatos calçava,
Era linda, oferecia perdão, luz e dádiva,
Seu coração de amor transbordava
Aquele olhar doce… a Virgem possuía,
Sua voz caridade!
Pecadora eu balbuciava Amém
Maria, minha Mãe, acenava-me,
Deixou-me  confiança,
Envolta num coro de Anjos subiu aos Céus
Sob um sublime som de Ave-Marias!

Ofélia cabaço 21-12-2012










sexta-feira, 27 de março de 2015

www.mundoacoriano.com



Abraço ao mar
As diferenças aquando da minha chegada ao Continente foram inúmeras. Vitorino dizia: “ aonde quer que vá, o açoriano carrega a sua ilha às costas”.

Embora tenha ido viver a 50 kms de Lisboa, numa terra chamada Olelas, perto de Almargem do Bispo, senti diferença em quase tudo o que diz respeito às nossas origens e hábitos. Era uma zona rural, com tudo o que eu via de natural nos desenhos e nas pinturas de então, mais ainda, do que na realidade rural de S. Miguel.

Aquelas pessoas viviam fundamentalmente da agricultura, gente com coração de ouro (todas aquelas que não tinham qualquer vínculo à família de meu marido) foram extraordinariamente gentis comigo. Era um local que não tinha água canalizada nem eletricidade.

Até ali nunca tinha feito nada de especial no que diz respeito à lavagem da roupa e tampouco ao passar a ferro; tinha dezoito anos, estava grávida, vinha duma cidade onde todos nos conhecíamos e não me lembro de ter alguém que não gostasse de mim e me não estimasse. Senti uma saudade que quase me derrubou no ser e forma espiritual. Tínhamos em Ponta Delgada, desde que me lembro existir, água canalizada e eletricidade, apesar de nos anos sessenta a vida ter sido muito difícil, pois tínhamos carências de quase tudo no plano económico e político; as nossas tradições e a afetividade eram sobremaneira cultivadas e sentidas. Sempre soube ser uma menina muito amada pelos meus tios, tias, primos e avó, pois não tinha os meus pais. Foram eles que me criaram, amaram e me deram tudo quanto lhes foi possível numa época tão difícil para se viver.

Por conseguinte, a primeira diferença e a mais penosa, foi a de ter de lavar a roupa num tanque que se situava junto a um poço, e que para isso, tinha de tirar baldes de água para encher o tanque. Depois, para passar a ferro a roupa, tinha de ser com um ferro de carvão; eu desconhecia totalmente como fazê-lo, não fora as pessoas tão gentis e amigas, naturais daquela aldeia, que me ensinaram experientemente como
utilizar um ferro a carvão, seria muito complicado para mim.

Em relação à falta de luz devo dizer que não senti ser assunto tão problemático, quanto a falta de água, na medida em que, deliciava-me jantar com o meu marido e fazer serão à luz do candeeiro. Inspirei-me de tal forma na época, que reli os clássicos, Aquilino, Torga, Camilo, Eça, Júlio Dinis, Garret, Herculano, Antero e outros.

Olelas, era um lugar campesino, com prados atapetados de malmequeres e marcelas, especialmente no tempo primaveril. Havia uma vacaria onde as vacas, nada tinham em comum com as que eu estava habituada a ver nos pastos verdejantes da minha ilha, e os campos com hortas eram imensos. Lembro-me, agora com saudade, que havia um campo de trigo juntinho à minha casa; passei algumas horas a admirar aquela seara doirada, deliciava-me com o cheiro a terra, o deambular das espigas e os cheiros da natureza. Mas, e o mar? -, não via nem ouvia o mar, lembro-me muitas vezes de sonhar que estava no Clube Naval de então, em Ponta Delgada, junto ao paredão da avenida, com os meus amigos “Rebelo” e com o Capitão Bulhão Pato e seus filhos, a ensinar-nos a nadar nas manhãs fresca da cidade, como tinha sido habitual. E o tempo? Aqui um frio indómito, as minhas mãos cheias de frieiras, a chuva intensa e sistemática, a minha angústia, as saudades… foi mesmo muito difícil deixar a minha ilha. Nas tarde mornas de primaveras calorosas, tudo o que me animava, eram longos passeios pelo campo, poetizando numa sucessiva briga com a saudade.

Nos arredores daquele povoado, havia várias fábricas, muito recentes, pois ali a mão-de-obra seria muito mais barata, e para além disso, era conveniente para os administradores edificar novas sedes na periferia de Lisboa. Com esta “moda” reparei que as pessoas que lá trabalhavam, apesar de baixos salários, tinham beneficiado com novos hábitos de sustentabilidade, e assim sendo, as suas vidas melhoraram proficuamente.

Na semana seguinte à da minha chegada, fui inscrever-me numa fábrica; mandaram-me ir trabalhar no dia seguinte. Trabalhei lá durante vinte anos. Comecei pela oficina, uma vez que naquela altura havia só aquela vaga; oito meses mais tarde fui para os serviços administrativos, começando pela secção de Métodos e Tempos; passados uns meses, fui para a contabilidade, onde estive durante nove anos; mais tarde fui convidada a secretariar o Diretor Financeiro, e assim sendo, até à falência da Fábrica aí trabalhei. Foram anos de muita convivência e muita afetividade. Conheci muitas pessoas e tenho um imenso carinho por todos quanto lá trabalharam comigo. Durante este ingresso tirei alguns cursos, muito especialmente na área de Informática, Organização Industrial e Novas Tecnologias. Após a falência da Fábrica em 1988, respondi a um anúncio para secretariar Advogados com escritório em Lisboa; fui chamada e fiz durante uma manhã os respetivos testes para a ingressão no escritório, e, naquela tarde disseram-me para ficar.

Trabalhei até há pouco tempo com advogados; neste momento estou dedicada ao meu curso de Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa e à minha escrita.

À medida que a minha idade avança, cresce o desejo para ir viver numa das ilhas dos Açores. Tenho paixão pela ilha de S. Jorge, não a conheço, mas a minha avó paterna era de lá, e quando li “Mau Tempo no Canal” do nosso Vitorino, acalentei este desejo até hoje. Sei que os tempos estão mudados, mas creio que ali, ainda haverá muito de genuíno.

Um abraço para todos os açorianos, onde quer que estejam, sejam felizes.

Ao mar da minha terra: 

Aquela pedra grande
Tão pequena para o mar
Rodeada de conchas e pedraria
Confidente de tormentos e choros
Quieta, esbofeteada pelas ondas
Com muito para contar, segredos!
Sentei-me a seu lado, ouvi!
Uma gaivota a troçar, liberta,
Sobrevoava o imenso azul
A pedra murmurava o abandono
Desejava pertença de um dono
De todos, era ninguém
Disse-lhe não saber a quem pertenço
Esqueci-me de onde vim,
Sei apenas para onde fui,
Longe, longe estou cansada
Não alcancei amor, morri no caminho
Deixei para lá um rio de lágrimas
A sede bebeu-o, morreram os nenúfares!
Ninfas desoladas,
Vou envolver-me numa lágrima, apenas!
Oiço o mar, saboreio o sal da vida,
Deixo-me pentear pelo vento, carícias,
Encho minha alma com som de sereias
A pedra almofada no meu leito, ajeito-me!
Juntas homenageamos a Poesia,
Ao ritmo de baladas sonoras, as ondas
Abafadas sob longo abraço do mar
A pedra e eu, que nada sei de mim!
OFÉLIA CABAÇO
Aposentada, estudante de Filosofia
Natural de Ponta Delgada, residente em Sintra
26-03-2015

segunda-feira, 23 de março de 2015

Abril

Abril sacode os dias com chuvas mil
E as tardes timidamente quentes
Se misturam na doçura revigorante
Duma névoa de lágrimas..., uma subtil
Natureza que oferece pombas e Sol
Minh´alma e o sabor efémero da Paz
Trazem-me as mais belas recordações…
Íntimo sentimento cor-de-rosa com poesia
E flor de amendoeira, e eu, prisioneira
Das coisas que lembro… anestesia
Compacta que envolve o ar com cheiros
De alfazema e alvas japoneiras…

Os pomares que conheço, mealheiros
De insaciada natureza, inconformada,
Cemitério de vergel e o canto passageiro
Duma felicidade calada, desenganada…
Abril, a serenidade dos dias, levitação
Do real ao irreal,
O alimento dos meus sonhos, grãos
De trigo em mar de searas, o meu coração
Rejubila e papoilas ondulantes ao rubro
Das minhas ilusões, inclinam-se e se ajoelham,
Colorindo de vermelho exangue a minha seara…
E a verve tece preces que se ouvem na solidão
Do fim, aonde apenas UM  me escuta…

Ofélia Cabaço
2015-03-23



sexta-feira, 20 de março de 2015

Anjo

Colhi malmequeres e marcela
Numa planície algures,
Coroei uma cabecinha linda
Dona de um rostinho de anjo,
Fugi para longe com ela
À procura dum Arcanjo
Olhos azuis transparentes eram seus
Boquinha cor de cereja madura
Tranças negras ao vento, ai jesus!

Colete turquesa possuía, pura
 Era sua alma de criança,
Fiz pomar com pêras sumarentas
Jardim com flores e borboletas
Alpendre de glicínias para sombra
Estufa espiritual, tal e qual nuvem luminosa
Verdes campos com papoilas enganosas
Para lá do muito longe, jazem
Tombadas como círios derretidos
Em fim de procissão, assim dizem,
 Respiramos oração e harmonia
Ouvindo som de clarim em agonia
Clamando a aurora de um novo dia
Como tocha que aos corações alumia


Ofélia Cabaço




2015-03-21




quinta-feira, 19 de março de 2015

Nossa Senhora e o Rouxinol

Certa noite quente de Maio, passou Nossa Senhora por um caminho estreito que levava a uma esplêndida vinha. Estava luar e  a noite era de uma plena serenidade; de repente, a Virgem Maria ouviu no silêncio o piar aflito de uma ave; era como se fosse uma queixa apelativa.
Com pena, Nossa Senhora correu para o sítio de onde vinha o choro, e deparou com um rouxinol preso pela gavinha da videira.
Então, Nossa Senhora com as suas mãos hábeis, desenrolou as patas do rouxinol livrando-o do enleamento das pontinhas da videira, e suavemente, recomendou-lhe que não mais se deixasse adormecer enquanto crescessem os fios esguios da videira. Feliz, o rouxinol voou até ao mais alto, num agradecimento à Virgem, finalmente estava livre e podia voar...
Desde então, o rouxinol canta sempre de noite para não adormecer, e em forma de gratidão, os seus gorjeios são assim:
Nossa Senhora disse… disse… disse…
Que, enquanto o gavião da videira subisse, que não dormisse, que não dormisse… que não dormisse…
Nas noites, quando ouvires o rouxinol cantar, tenta escutar:
Nossa Senhora disse… disse… disse…

Ofélia Cabaço

2015-03-19


Foice aos Sonhos

Dois vultos olham-se…
Perdidos num reino sem Vida
Olhares profundos, mãos sem lida
Saudade da Saudade que viria…

Ninfas entorpecidas
Vida tortuosa
Amores platónicos
Poetas adormecidos
Sorrisos…
De pobres palhaços,

Dois vultos olham-se…

Sonhos e piruetas
Saltos e pés
Voos e asas
Flores e pétalas
Pintores e telas,

Dois vultos olham-se…

Operários sem máquinas
Lojas sem portas
Polícias sem armas
Palácios sem reis
Oficinas sem som
Povos sem casas
Crianças sem amor

Dois vultos olham-se…

Amor e silêncio
Afagos e mágoas
Caminhos e pedras
Mares e horizontes

Dois vultos olham-se…

Lábios trémulos
Rostos ansiosos
Uma só flor…
Roxa de sua cor
Como um mancha no sonho



Ofélia Cabaço
 2013-02-27