domingo, 3 de novembro de 2013

Silhuetas

O céu dos Açores é azul
Casas brancas com janelinhas
Pespontam o mar da minha Terra
Barcas flutuam no mar azul
Sobrevoam gaivotas vestidas de tule
Tons brancos e cinzentos e as nuvens,
Asas e danças dali ao infinito
Silhuetas, sei lá de quem, vagueiam
O mar,
Ondas agitadas cegam olhares
As promessas incertas navegam
Decerto ficam a morar no firmamento
Envergonhadas como almas devedoras!
Nos vales dos céus, eu vivi um dia
Era imenso o espaço com açucenas e Paz
Havia um manto azul que me cobria
Também harmonia e o Deus capaz,
À porta do céu estava uma barca, alva,
Trazia mil silhuetas, sei lá quem eram,
Chuva de açucenas e asas imensas
Aromas e cânticos, seus prantos calaram.

Ofélia Cabaço


2013-11-01


 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A tua Voz

Queria tanto ser artista
Pisar o palco para ti
Contar emoções que senti
Nos sonhos em que foste altruísta

Fala meu amor, tu existes,
No meu palco nunca te ouvi
Oiço cânticos nas noites tristes
É a cotovia que me desperta

E o vento que me faz bater o coração
Sussurra, como quem me enlouquece!
Num retumbante de ilusões e quimeras
Aperto os lábios trémulos, recordação,

Minha alma desinquieta, a cismar
Oro à deusa dos rios e do mar
Peço-lhe cascatas das suas águas
Num turbilhão de sons e música

Canções cristalinas e lembranças tuas,
E a tua ausência que me torna tísica,
Passa por mim e a minha dor transporta
À noite dorme na soleira da tua porta

Como uma douda insiste na minha doudeira
As cortinas descem, no silêncio costumeiro
A tua voz balbucia palavras dissolúveis
Sozinha no palco como um romeiro,
Vislumbro caminhos voláteis.



Ofélia Cabaço


2013-11-02


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Ironia

Três pedrinhas muito juntas,
Na beira dum penhasco viviam
Havia um caminho vão, vinham e iam
As três uma união, forças muitas,

Arrastada por intempéries
Juntou-se outra pedra, negra e barbárie
Fortes vendavais,
Tumultos que levais

Conflitos e tormentas,
Gerou a pedra com suas ventas,
Alterou bonança para discórdia
Junto ao penhasco a alegria não medrara
Os pássaros roucos pararam a melodia
Rebolou-se atrevida nas pedras, a pedra

Com um olhar sem cor, fitava
Observava e desafiava, na beira do penhasco!
Silêncio, pedras mil, naquele ermo sem fim
Um rebanho, no silêncio, fazia tlim-tlim
Apanhou a pedra o pastor atirou-a para longe
Não fora sequer carrasco, antes, distraído
A pedra à beira do mar, ânimo traído
O mar imenso com branco babete
Vomitou espuma com ginete
Levou a pedra para o fundo, muito fundo,
Daquele mar com ondas p´ra contar!

 

Ofélia Cabaço

2013-10-28


 


 


 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Imensa é a Planície

Planície perdida, quem sóis?
Em ti moram girassóis
Chorosos, olhos negros e coração
Cabeleira doirada, um condão
Suas pétalas sedentas, o calor!
Ao sereno, caem preguiçosamente,
Uma a uma, discretamente,
Quietude, sossego da alma
Como água serena das fontes
Ouvem-se de muito longe, as vozes
Todas as noites, e de dia, às vezes,
Uma quietude embaraçosa, fugidia,
Trémula, esquecida da luz  do dia
A planície, vestida de viúva
Ébria de húmidos aromas
Agoniza, sensual como as damas
Chamas que se somem na ardura
Dum sonho incerto que perdura
Quem és planície?
Sou enfim, o abraço d´agonia,
Responde o poeta ressuscitado!

 

Ofélia Cabaço
2013-10-25

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Dantes

A joaninha vermelha
Aquela que não tinha pinta
Resoluta, saiu da telha
Trabalhou na horta verdejante
Cuidou plantas, evitou pragas
Floresceram nabos, cravos e bagas
Vigiou, acarinhou, a lealdade
Não a tornou uma beldade
 E, a horta? -  tão abundante!
Pujança e riqueza de Dante
Dedicada foi a joaninha,
Confraternizou com formiguinhas
Reflexo de imagem briosa
Acordava nas manhãs  manhosas
Num despertar mansinho
O  Sol, brilhava no caminho
Lá ia a joaninha sonhadora
Passo aqui, ajuda ali, a hora
Premiada foi p´la natureza
Não fora coroa nem louro,
A dedicação com certeza,
Envolta de Paz, eterno ouro!

 Ofélia Cabaço -2013-10-

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Regresso

Na minha porta ouvi bater
Breve alegria, escutei!
Senti alvoroço no meu coração,
Pois sorte havia de ter

Instantes demorados, estranhei
Quem é? Perguntei curiosa
Respondeu-ma uma voz penosa
Sou eu, - a tua alma!

Quão viajada esta minha alma
P´la vida tão austera
Abri a porta, balbuciei
Alma minha, sê Primavera!

Planta alegrias no meu jardim
Malmequeres brancos, desfolhei
A meus pés, pétalas e jasmim
Serenatas ao luar, escutei.

 

Ofélia Cabaço  

2013-10-22

 

 

domingo, 20 de outubro de 2013

Vago

Deixou-me aqui o vento
Esquecida neste canto, vislumbro
Montanhas e florestas, entretanto,
Falo-te de afetos com assombro

Neste silêncio a tua voz é calma
Vagueia como destino nevoento
Oiço expectante o meu pensamento
Que me aconselha sossegar a alma

És um judeu errante, peregrino,
Aquele que sabe e não tem tino
Sei que o vento te sussurra
Que o meu sorriso é teu, sou terra,

Dela nasci, e o nosso amor também,
Sinto que nesta colina, sou ouvida
À noite as nuvens descansam, amém,
P´la madrugada, clareiam a minha vida

Tu que és impassível e me estimas
Não saltas, não sorris, não me animas
Eu, muda, soturna, desejo-te!
Meus cabelos branqueiam,

Tu és as minha rugas,
Nossas vidas húmidas de calor
Lagos a fluir águas e ardor
Chamas que amansam nossas brigas.

 

Ofélia Cabaço   2013-10-20