segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Não fora Visão

Nada dum amor tinha sobrado
Daquele dia cinzento e orvalhado
Depois, irónico, surge outro dia cinzento
Sublime, ele sobressai no movimento

O coração palpita ainda dorido
Tenta juntar o que fora partido
O oiro na mina não renasce
Aquela bofetada, manchou a face

Duma pálida primavera,
Construí sonhos, não quiseras!
Não restaram cravos nem rosas
Recolheram-se lágrimas penosas

Ficaram apenas, asas de anjos
Que embalaram o desarranjo.

 
Ofélia Cabaço – 2013-09-30

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Cansada

Que canseira de pensar
No passado sem retorno
Bailam as origens com pesar
Beijar a mão da tia, não torno

O sabor do feijão à mesa, tão longe!
As gargalhadas das amigas, saudade,
Os sinos da igreja, o convento e o monge
O véu branquinho sobre os cabelos sem idade

Pinheiro de Natal, aroma da criptoméria
O presépio e os pastores vigilantes
Na gruta de pedra, Jesus, José e Maria
Azáfama de limpezas e bolos, dantes!

Pensamentos e saudade, unidos
O sótão com janelinha, a minha cama
Claridade da Lua abençoando quem ama
Um abraço apertado, ternura, tempos idos,

O horizonte tentador, para além do mar
A avenida  e o mar na manhã sossegada
Meus passos somente, liberdade desejada
O desassossego de quem deseja amar

Desenhos líricos no traço do destino
Cores vibrantes pintadas a óleo cristalino
Lagos, flores e uma casinha na serra
Uma camponesa e searas ao vento
Caminhos sem fim na procura da Terra.

 

Ofélia Cabaço
2013-08-06

Domingo

Uma reunião de amigos que percebem o que pensamos, o que fazemos e o que gostamos na realidade. Hoje aconteceu durante um magnífico aconchego com troca de opiniões, receios passados, medos do hoje, desesperança no futuro, recordações de regras e ensinamentos que nos fizeram ser as pessoas que somos. Para mim foi um sucedâneo de emoções e recordações que em tempos foram de um rigor exagerado, mas, que contribuíram para um ponto mais ou menos pérola.
Senti que a minha Pátria é o meu berço temporário aqui na Terra, sei que se chama Portugal uma vez que, a Pátria que me espera existe na eternidade. Tento fazer coisas que tenham alguma utilidade para o “outro”, começando obviamente por mim, p´la minha mente, por deveres que, não são razão, mas sim essência.
Não gosto de imposições e certamente não é por ser arrogante, é somente porque não tenho a mínima paciência para fazer o que a maioria “acha bem”, quando esta mesma maioria, não concebe o “acha” e o “bem”. Muitas pessoas não precisam sequer falar para que eu perceba que o meu sentir e a minha retórica, não lhes interessa para nada. Não obstante, eu, que sou uma “chata”, tenho que ouvir as mais banais e repetidas conversas acerca do “esperto” que resolve tudo com uma indiferença tão calculista e fria que chega a arrepiar. Por tudo isto tenho a boa disposição de partilhar a minha satisfação no convívio desta tarde com gente que fala, escuta e avalia.
Tal como o moinho do milho que torna os grãos em farinha, muitas vezes a minha alma mói pertinazmente o que a faz ensombrar manifestamente para a infelicidade.
Esta tarde, a minha mente foi arejada de coisas boas, de conselhos, algumas reprimendas, e ainda de doses suaves de reconhecimento. Que bom!
No começo da noite percebi que os manjericos do meu jardim orgulhavam a mão que os trata e mima, fizeram as hortenses azuis chorarem confetes, que se espalharam coloridamente em torno de nós. Encheram o ar de cheiros e contentamentos. As estrelas piscavam na abóboda elevada ao povoado, numa envolvência luminosa de harmonia e paz espiritual. Agradeci a Deus a capacidade que me deu para apreciar as várias metamorfoses que a natureza produz imutavelmente, assim como o sentimento de me deixar conduzir pela beleza das pequenas coisas.
Pensei em África, falamos sobre o feitiço que África proporciona com as suas cores e sons a cada Ser que lá nasce.
Depois, no que poderíamos fazer para ajudar aqueles povos a viverem e usufruírem, p´lo menos, com a riqueza que aquelas terras oferecem a nível natural e não só.
Foi uma tarde enriquecedora. Amei.
Vou ler o meu livro “ Os Dabney”, estou encantada por entrar no século dezanove e perceber o que acontecia nas ilhas naquela época. Descobri que Mark Twain na sua grande viagem p´lo mundo, parou na ilha do Faial, e como sabemos ele escreveu muito durante toda aquela viagem; A sua descrição foi a de que, os ilhéus eram moles, preguiçosos e pouco ambiciosos para além de desconfiados. Mark Twain escreveu a pior opinião que alguém pode ter acerca dum povo. Não gostei muito, sinceramente, mas, mais adiante, percebi que aquele pensamento não era muito credível na medida em que outros personagens com craveira intelectual, politica e médica disseram exatamente o contrário. Durante a guerra Liberal/Absolutista as ilhas foram de uma força e capacidade de querer e resolver do mais épico possível.
Vou continuar a ler e babar-me com toda aquela azáfama de uma família americana a viver na pequenina, verdejante e sossegada ilha do Faial pespontada com um mar por vezes enfurecido ao ponto de os barcos ficarem ao largo da baía durante vários dias à espera que o temporal amainasse. Não me importaria nada de ser um farol naquelas paragens.

Ofélia Cabaço 2013-08-05

 

domingo, 14 de julho de 2013

Cesário

Verde foi o poeta Cesário
Levou-o a morte tão cedo
Ávida de vidas e credos
Saltou para além do casario
Pradarias de flores e poesia
Lisboa magra de fantasias

 Sob os olhares de Marias
Ajoelhou terra e capelas
No campo e na cidade, tudo queria
Nos roseirais contou pétalas

Temperou esperanças de Lisboa a Queijas
Sorveu poesia, escreveu realidades
Observou ruralidades, para que vejas,
Campos de trigo doirados, frémitos braços
Pregões de favas, vendedeiras p´la cidade

Bebeu Primaveras, abraçou Verões
Folhas caídas, nos passeios da cidade
Nos campos, o restolho monótono
Outonos vermelhos com liberdade
Finalmente o Inverno e os serões

Lisboa envolvida de fumos cinzentos
Castanhas assadas, frio e argumentos
Janelas fechadas com vidros quebrados
Rostos com sorrisos enfezados,

Cesário escreveu e observou
Campo e cidade amou,
Não fora a pressa da morte
E escritos teria a Corte

 
Ofélia Cabaço   2013-07-14

CINZAS

Mulheres com alma mansa
Existem!
Descem os degraus
Aqueles que subiram
E odeiam
E amam
E escutam
E esperam………….
Não são ervas, são gente!
O tempo avassalador
Sepultura de grandezas
Sentimentos, desapontamentos
À beira dos jardins pisados
Silêncio (..)
Dedos nos lábios, silenciando
Os pios,
Alma apagada varrida d´alegrias
E os ventos percorrem colinas
Montanhas e bosques,
No tempo vertiginoso,
Ironizam grisalhos,
O tempo com asas invisíveis
Transforma idades em areias movediças
Depois o deserto…….
Um dia foi árvore resistente
Ao rigor das estações,
Pronta a abraçar primaveras
Ouvindo o canto das aves, outras eras,
Recebendo inebriada o alvor,
Em cada manhã de um novo dia
E o vento que não chega
“Oh vento estremece as almas
Leva as cinzas para longe e,
Traz, oh vento, ramos da oliveira”

Ofélia Cabaço
2013-07-13

Noite

Não há amiga maior que a noite serena,
Entrega-se transpirando aconchego
Espero-a, sentada sob o plátano da arena
Inquieta, despedi-me do sol há que tempo,
Já os grilos entoavam música e ecos
E a noite quente, liberta de ralhos
Vem até mim, acolhedora, complacente
Que beleza e paz duradoira
Em silêncio, ouvimos o restolhar das folhas
Pirilampos iluminam as estevas engomadas
Numa despedida ambígua, condescendente
De choros compulsivos dos parentes
Arrastam-se lentos bichinhos-de-contas
Junto aos meus pés sem mais fitas
E ela, a noite, placidamente sensual
Aconchega-me num cálido instante
Fecho os olhos e deixo-me embalar por tal,
Momentos e desejos dos livros da minha estante
O mundo onde sou feliz e amada!
Natureza minha mãe sagrada
Alberga-me até que venha a geada.

 Ofélia Cabaço


2013-07-13

sábado, 6 de julho de 2013

Ofélia, Seculo XXI

Sou apenas um ser
Que nada é, a haver
Apenas sente (…)
E ama, num repente
Deseja justiça e anseia
Sou um ser que pensa
Que transmite ideias
Espirito de benigna ofensa
Sou irreverente, justiceira
Angustia-me quem não tem beira
Abomino a arrogância, a fome
Sou aquela que se consome!
Sou talvez, a indesejável
A que fala e grita, contestável

Ofélia Cabaço  2013-07-06