quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O Caminho

Caminho, caminho e caminho
Como um caderno ao contrário
Aonde escrevo dor, sem qualquer simetria
Caminho apenas procurando O Caminho

Como águas puras dos rios, anseio
Percorrer os vales e chegar ao mar…
Saborear o sal e beber branca espuma
E caminhar no resplandecente azul imenso
Suspensa por fita violácea desde o céu
À Terra…
Como uma doida fugir da bruma…
Adormecer sobre folhagem caída
Enlevada por odores das criptomérias,
Sem qualquer simetria…
Num lugar aonde não há tristezas
E a vida é um cântico…, a vida,
Almejando o caminho da ida,
Sob égide de brisa suave,
Cores e conchas pintadas…

Desejo, sem qualquer simetria…
Esquecer os passos tristes d´outras eras
Despir-me da dor e vestir-me de amor,
Sossegar minh´alma…
Ouvir melodias ao romper do dia
Recolher a saudade de onde eu era
Como um jogo de luz e cor,
Sem qualquer simetria…



Ofélia Cabaço
2015-11-19



terça-feira, 10 de novembro de 2015

Flores Azuis e Brancas

Uma cesta com flores encontrei,
Eram azuis e brancas, traziam versos
Que não rimavam, mudos, vaporosos
Tocaram minh´alma… suspirei!

À beira do caminho os tormentos deixei
Sob um firmamento azuláceo, cristalino,
Jurei amar-te ao desatino…

Pássaros, nenúfares, lagos e rios, oiçam:
Feliz só quero ser…
Colher sorrisos e espalhar amores - perfeitos
Como outrora brilhava o entardecer…

Piso terra árida, no meu coração oásis
Serei morta no mundo sem que me ache?
Abrigada no manto azul de Ísis?
Natureza que adoro e venero…
Pudesse escolher ser profeta, esquecida
De mim e da tristeza…
Ah se pudesse, seria feliz com certeza.

Ofélia Cabaço
2015-10-10

“ sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência”
Pitágoras


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

É o meu sentir

Sentimento gravado em minha consciência
Que a toda a hora me ensina o Caminho
Renegar atalhos e duvidosas sombras,
Alcançar o pão, rejeitar sobras…
É o meu sentir…

Pensar as pessoas perfeitas
É minha natureza, imaginação
Minha que alimenta meu coração
E …tantas vezes me engana…
É o meu sentir…

Sonhar os sonhos que não alcanço,
No caminhar, sementes lanço
Raízes mortas, não quero, antes
Viver o inusitado, beber quimeras
Adormecer em cama de margaridas
Acordar em todas as primaveras
E morrer ao cair das folhas…
É o meu sentir…

Minha tristeza, teimosa, vagueia
Dia e noite por vales e colinas,
Aquieta-se à hora do crepúsculo…
Porque a noite vem e com ela as estrelas,
Brilham, e, malinas…
Impedem a noite de me torturar
É o meu sentir…

Contemplar as flores do meu jardim devo,
Afugentar a bruma baça
Que à minha vida embaraça…
Eu devo…mas não consigo, prossigo…


Ofélia Cabaço
2015-10-09




terça-feira, 27 de outubro de 2015

Conheço O Desconhecido…

 Aquele que me conhece eu amo,
Conheço-O no âmago do Desconhecido
Em cada folha que leva o vento,
Teu olhar padecido…
Tua palavra é fio reluzente entre Árvore e ramo
Deu-me a voz que a mais não invento
Dentro de mim, bálsamo de Ti…

E as folhas caem uma a uma, sem dó
Do desamparo da nudez…
Observo a decadência com olhos trágicos
Amanhã talvez…

E minh´alma ferve comiseração
Ociosa duma trégua à mão do Fado
Impotente … , salve Salomão,

Horas que me não lembro,
O sol dardejava entre ramagens
Alívio meu enfim, alvito…

Sobre planície alagada brilhava candura,
Corriam águas gélidas nos rios,
Açucenas e lírios bocejavam nas margens
E os salgueiros dobravam-se para Ti
Eu sou o choupo que se inclina e perdura

A minh´alma…
No silêncio da Tua palavra pressentida
Vestida de chuva nas colinas…
Contrito, o meu coração para Ti.

Ofélia Cabaço
2015-10-27








segunda-feira, 26 de outubro de 2015

As palavras que escrevo,

Todas as palavras que escrevi
São exaltação, são premissas,
Porque tudo tem conexão na exatidão
Do meu sentir, e de mim são promessas,

Combato a ignorância, filha bastarda do supérfluo
Eu, que sou ignorante, na ignorância dos outros flutuo,
Oiço ao longe, orquestras idem, bis…
Honras ao poder e ao absurdo, teclas partidas
E um piano calado à tona do mar
Som de gaivotas irisadas, azar,
(Dizem os Velhos sempre Novos…)

Gaivotas…
Violam o espaço e o silêncio
Sob um firmamento saudoso de cores
E os poentes, em tons de aguarelas,
Esmaiados de vida e ardores
Prenúncio dum decreto mefistofélico…
Sonhos venturosos, pedaços de mim
Que sobre a nudez dos vales florescem
E morrem e nascem e morrem, instantes…
Quimeras que construí num dia luminoso
Alívio dum peso monstruoso,
Que dilacera minh´alma e me obriga a carregar
O tamanho duma injustiça secular…
Não sei da balança, só sei do meu agir para atingir…

Ah! Se não fosse este devaneio que me dita palavras
Eu não escreveria, morreria antes…


Ofélia Cabaço
2015-10-26









terça-feira, 20 de outubro de 2015

A Tua Mão

Quando dum insano sonho acordei
Já o Sol ia alto…
O silêncio a meu lado exaltava
A voz rouca que dentro de mim persiste
E insiste, demoradamente, desde que existe…

Muito baixinho, como que debaixo dum sereno altar,
Assim, mansamente me dizia:
-Que o amor e a justiça não se abatem
São bravura e piedade e coragem,
Inomináveis…
São verdade e combatem
Os que perturbam o sossego dos pássaros,

Compleição extensiva duma mão imutável,
Arautos do possível na impossibilidade
Daqueles que procuram o extensível
No esquecimento dum canto longínquo…

Disse Hesíodo:
“ O amor é o arquiteto do universo”

Ofélia Cabaço
2015-10-20




sábado, 17 de outubro de 2015

Ventos

No embalo dum abraço impetuoso,
Dançam as árvores e sussurram os bosques
E piam as aves e as folhas caem, chorosas…
E as fontes clamam sob montanhas áridas

O vento…
Gotas de orvalho molham os beirais
As almas ciciam no vazio seus ais…

O vento…

Para lá da serra rugidos e assobios
Sintra… vestida de malva e o véu costumeiro
Esconde o mar imenso…
Saboreio o hálito salgado do mar da minha terra
Reflexos de vida minha e uma lagriminha…

 O vento…

Cansado, o vento, estende-se nos telhados
E agonia vocifera,

O vento…

De repente o repoiso das coisas,
A Natureza e a morte, o devir
Necromancia sobre um tempo que há devir
Porque o tempo que já não é despediu-se de mim
Num intervalo de dó e ré…
Composição incompleta ao som dum débil clarim;

Ofélia Cabaço
2015-10-17