terça-feira, 20 de outubro de 2015

A Tua Mão

Quando dum insano sonho acordei
Já o Sol ia alto…
O silêncio a meu lado exaltava
A voz rouca que dentro de mim persiste
E insiste, demoradamente, desde que existe…

Muito baixinho, como que debaixo dum sereno altar,
Assim, mansamente me dizia:
-Que o amor e a justiça não se abatem
São bravura e piedade e coragem,
Inomináveis…
São verdade e combatem
Os que perturbam o sossego dos pássaros,

Compleição extensiva duma mão imutável,
Arautos do possível na impossibilidade
Daqueles que procuram o extensível
No esquecimento dum canto longínquo…

Disse Hesíodo:
“ O amor é o arquiteto do universo”

Ofélia Cabaço
2015-10-20




sábado, 17 de outubro de 2015

Ventos

No embalo dum abraço impetuoso,
Dançam as árvores e sussurram os bosques
E piam as aves e as folhas caem, chorosas…
E as fontes clamam sob montanhas áridas

O vento…
Gotas de orvalho molham os beirais
As almas ciciam no vazio seus ais…

O vento…

Para lá da serra rugidos e assobios
Sintra… vestida de malva e o véu costumeiro
Esconde o mar imenso…
Saboreio o hálito salgado do mar da minha terra
Reflexos de vida minha e uma lagriminha…

 O vento…

Cansado, o vento, estende-se nos telhados
E agonia vocifera,

O vento…

De repente o repoiso das coisas,
A Natureza e a morte, o devir
Necromancia sobre um tempo que há devir
Porque o tempo que já não é despediu-se de mim
Num intervalo de dó e ré…
Composição incompleta ao som dum débil clarim;

Ofélia Cabaço
2015-10-17


domingo, 13 de setembro de 2015

Desejos

D´oiro são meus desejos
Inquietação de ferro…
Pueril a corda que os amarra
Maldigo o que vejo:

- O mundo a girar e minha garra
Arrastada por correntes duras,
Duras correntes duras palavras…

Às vezes,
Uma estranha Paz me invade
Instantâneo de fugidias sombras
Ledo é o sossego que me amansa
Mavioso som de flautas, o pastor,
É como beijar verdes campos, coisa
Que me contenta e não cansa
A noite clara que me repoisa
Quando a tormenta me solta
E me diz que o Tempo não volta
As sombras, quiçá dos mortos que amei,
E os cheiros constantes…
De flores da magnólia do quintal, antiga,
Que me embalou e sussurrou cantigas
São d´oiro meus desejos…

Ofélia Cabaço

2015-09-13

sábado, 12 de setembro de 2015

Taça

Rutilante num assomo de promessa
É Taça de mil cores, enganadora,
Bolas de água que se esvaem no ar
Encantamento feito de mil efeitos
No caminho, com frémito prazer, devassa
Fingindo ser mais alta é ela geradora
Dos abismos…

Olhos cheios de porosa névoa e o Futuro…
Densas lágrimas, num dia pouco longe,
E todos em procissão espectral, obscuro
Desígnio, face aos presságios dum triste monge,
Em silêncio, aguarda o entreluzir d´aurora
Aurora escondida em altas ramagens…

Cabeleiras farfalhudas sobre ocas cabeças
E a Taça persistente, como quem não mente
Num esperado instante,
Se desfaz em tons de aguarela…

Ofélia Cabaço
2015-09-12


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O Que Pareço

A generosidade de quem lhe foge
É um véu de monstruosa aparência,
Buscou minha mão e paciência
A ingratidão ontem e hoje…

Será sempre ela mesma
Não há manto que a proteja,
E quem protege… meu manto teceu
Daqui até ao céu,
Minha boca trémula emudeceu
Disfarce díspar de santo da igreja

Uma estrelinha cintilante,
Roxos lírios em minha vida plantou,
No fim de todos os males terá começo
Um jardim e colcha roxa ondulante,

Uma sonhadora tonta pareço,
Cristalizando o tempo amargurado,
Respício e lugares ínvios, silentes
Na escuridão do que foi um condão,

Mas a voz que anda comigo
Insiste naquela dor que me dá desgosto
Oiço-a gemebunda, e não conheço seu rosto,
Caminho outro sigo,
À procura dum fantasma muito antigo
Que renego a toda a hora e não digo

Caminho com meus trajes andrajosos,
Que de mim nada dizem…apenas,
 Abrigam meus sonhos cautelosos
Que se evolem numa fita violeta pelo céu
Do meu contentamento…



Ofélia Cabaço
2015-09-12




quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Naquele cerrado vestido de brancas flores
Floresceu o grão com outros da mesma cor,
Solo vermelho e coração, terra criadora
Confiou o semeador,
Deixou semente e seus odores
E, grãos nasceram a rigor
Com grandes ilusões…

Aquele grão e a sede,
Aquele que ninguém alombou
Esquecido…
Empurrado pelas nortadas, sitiava o cerrado
Alacridade no deserto que o desertou
Semente brotou!
E flores alvas nasceram…
Em cada flor procurou um rosto,
Um prazer reposto…

Faces caídas sob um velado luaceiro
Encontrou…


Ofélia Cabaço
2015-09-11








segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Desânimo

Metade de mim é ânimo e vontade e amor,
É o acordar em cada madrugada
É aplaudir a Natureza e a Vida
É sentir-me comovida,
Agradecida…

De mim outra metade é angústia
Toda uma intuição desmoralizante
Inibidora, inquietante,
Um invólucro na coroa dos meus sonhos
Anseios…
Metade de mim é chuva
Torrente que me obriga enamorar a morte
São os suspiros do vento que me alentam
As airosas madrugadas,
O pio das aves que me encanta
As águas das nascentes a correr, incessantes…
É o rumorejar das folhas numa despedida breve
Que me despertam…

É o sorriso das crianças que me afasta o choro,
E a Vida que me chama…

E a metade duma metade impera
Na ambiguidade do que me espera,
A outra metade é apenas metade
Duma tola tempestade…

Ofélia Cabaço
2015-09-07