quarta-feira, 22 de abril de 2015

Angústia do Existente para Inexistente

Sinto uma angústia maligna que me aconselha incessantemente e me obriga a pensar na existência das coisas, onde se inclui o meu “eu” com apreensão doentia.
Faço um percurso aos primórdios do que nunca vi, mas senti, na perspetiva de encontrar um finito que me leve ao infinito, nalgum lugar do universo e onde, lá mesmo, uma voz possa dizer-me algo que me alivie…, um abraço, mesmo que abstrato, me aperte, me oiça e com alguma sumptuosidade impeça a angústia de me aconselhar uma rutura com o existente, um aconchego ao inexistente!
Depois, desejo encontrar o Pai de todos os pobres, e dizer-lhe baixinho, assim, sussurradamente, que O amo e que choro, e choro, e volto a chorar, porque o meu sorriso se impõe, somente, quando oiço as crianças, quando escuto a natureza e quando olho os pomares pintados de flores e frutos… tão doces e coloridos…
Mas o mundo não é somente uma “parte”, existem partes algures, por aí, onde as crianças não sabem sorrir, não podem ouvir a natureza, nem o nascer das madrugadas na sua plena magia, tampouco o canto das aves, nem o que são pomares de frutos saborosos; Escutam aquelas crianças, o medo…, somente o medo, e só isso, as fazem perceber que existem porque sentem a angústia do que não sabem que existe neste mundo de natureza tão ampla… as crianças que nada têm e carregam a angústia da sua existência, desesperadamente…
Dizem que o mundo pertence aos pobres, e são os pobres que impedem a nobreza dos espíritos, porque de tão pobres, só sabem o que é mandar destruir a nobreza do verdadeiro homem…

- Queria tanto sorrir e contemplar com ênfase este pomar colorido que é a Vida de todos os homens.
Dançar eu queria com mil crianças no bailado das borboletas esvoaçantes, coloridas e poisar tranquilamente no Pomar da Vida.

Ofélia Cabaço

2014-09-26


 


segunda-feira, 20 de abril de 2015

Paz

Quem te fala da Paz?
Todos e ninguém em si
Paz quão efémera
Desde Adão e Eva já era
A Paz que desconhecemos
Vislumbrei, um dia, uma alva nuvem
Onde timidamente a Paz espreitou
Vieram a ganância e o mal e o vento a levou
No palor duma subtil esperança…
Almas destroçadas rolam a Paz que não vem
E os homens esperam o que ao mundo convém
A Natureza que tudo pode …expectante, defraudada
Com a determinação homicida do homem, a guerra

E o homem inimigo de si e para si inimigo
Contemplando num gozo incessante o seu umbigo
E as intempéries da sua consciência destroem a Terra,

A Paz despida do que é seu, corrompida por poderes de papelão
Vacila nas suas convicções e nada impede o Capelão…

Paz,

Manifesto imutável, Verdade e Justiça que é do coração
Como uma montanha calada nos momentos de ilusão
O coração dos homens…às vezes frios e escuros bebem
Ingloriamente o que foi Glória nos tempos do Bem
E arrastam-se como as serpentes no sequeiro do Mal
Florestas incendiadas, colinas quebradas …monturo
E horas afrontosas desabam na Vida das vidas humanas


E a nuvem alva, ela própria se esconde no esconderijo da Paz
Ao lado duma revolução cósmica porque o homem é incapaz
De admitir que não gosta da Paz…


Esperamos pela Paz eterna, aquela que desconhecemos
A imagem mas sentimos e respiramos o Espírito, caminhemos
De mãos dadas em procissão com todos os seres vivos…
O homem, antecipador e processador da morte e dor,
Procurará um caminho maior e mais amplo em fraternidade
Amor e bênçãos…

Ofélia Cabaço
2015-04-20





terça-feira, 14 de abril de 2015

Onde Te Escondes?


Nunca te senti,
O teu corpo que eu anseio, não toquei,
E, amei-te, amei-te dolorosamente…
Como uma bola de neve leviana
A saltitar de Diana em Diana
Eras tu que fugias ardilosamente
Sinto mágoa sem que tenhas culpa
Das coisas que sei serem certezas
Como posso ter saudades tuas
Sendo eu sonhadora errante
Onde te escondes?

Cansaço de tanto procurar-te, eu sinto
Viajarei num alado que não volta
Percorrerei colinas com boninas
Com minhas mãos revolverei a terra
E para ti plantarei líros e açucenas 
Onde te escondes?

Oiço tambores ao longe, vazio
Da tua voz e clamores devoradores
Ah, esta minha alma atormentada
Sem ti e sem outro igual que és tu
Morre a cada hora, espírito derradeiro
Que já nem a tua imagem ilumina…


Ofélia Cabaço
2015-04-14







segunda-feira, 13 de abril de 2015

Vai e Vem...

Entre ramagens da magnólia

Espreita o Sol, à despedida

Todo santo dia aqueceu à medida

Generoso iluminou à revelia

 Devagar, devagarinho ele vai…

Com promessa de voltar, é honrado…

Vou dizer um segredo escutai:

 Quem dera que o Sol fosse namorado

Que se despedisse e voltasse

Que voltasse e se despedisse

Com a certeza que me amava

Eu esperaria enquanto dava…

 Oh! Sol majestoso e encantador

Traz-me novas dos teus deuses

Vem doirar a Terra com ardor

Abandonar-me não ouses…

 Tu que foste mistério noutras eras

Pintor de alvas amendoeiras

Doirador de searas imensas

Morador no vale celeste

Diz-me como são as deusas

E... não me deixes tensa!

 

Ofélia Cabaço

 2013-10-04

 

 

 

 


 

Entre os teus Lábios

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.  

                     Eugénio de Andrade

domingo, 12 de abril de 2015

Reflexão

Os dias no tempo,
São de mim a reflexão
São o recolho que se estende em meu redor
A quietude e o murmurar da minha dor
Que se esconde nos braços frágeis da paixão
A música das fontes e os perfumes de jasmim e rosas
São o elixir que me impede dormir em fraterna compaixão,
A canção da natureza que me deixa sonolenta, harmoniosa
Numa leve e doce teia invisível no ar crepuscular, atenta
Aos ruídos indesejáveis das almas que da minha alma arrogam…
E lamentam-se como os ventos do Outono que nunca se encontram
E despem e destroem e magoam…
Foi-me dada a honra de escolher o meu próprio destino…
Mas se fosse uma árvore seria certamente frondosa, daria frutos e atino
Não teria espírito e a culpa seria minha porque escolhi e colhi
Não encontrando o que procuro há mil anos arrogo-me na esperança
Sem qualquer desesperança porque os dias são de mim reflexão e taça
E vida e amor e dádiva…

Ofélia Cabaço
2015-04-12



sábado, 11 de abril de 2015

Indignação

Quando a minh´alma para o meu corpo se curvar
Numa consoladora aceitação e resignação
Então eu sei que morri…
Porque não consigo minha vontade elevar;

Contemplar o Tempo onde a minha história gravada
Com revolta e indignação,
É vocação minha e testemunho do meu sentir…
A violência do mal querer para o mal dizer, observada,
É refletir sobre o meu lugar vago na roda da Vida
Da vida que não é a minha mas duma multidão de vidas
Que giram num acervo de acenos que os ventos fazem rodar
De Norte a Oeste e de Leste a Este…
Não é esta a minha vida nem o meu canto é este,


Se já não sou capaz de saborear o silêncio que tanto prezo
E apenas sinto solidão,
Então eu sei que morri…

Antevejo um circo suspenso com palhaços imensos
Esboçando cada um, risos e desilusões num espaço
Que também é meu…
Sinto-me definhar na incapacidade de apelar à razão
Mas eis que, sem que se desse a conhecer e sem exaltação
A razão ocupou o lugar daquele lânguido desinteresse
Enfurecida devolveu-me a indignação esfumando a resignação
Do que sentido não faz ser…
Porque é assim que humanamente reafirmo a minha história!

Ofélia Cabaço
2015.04. 09