quarta-feira, 5 de março de 2014

Aquele Mundo


Aquele mundo!

Longo e tão pequeno, inusitado

O mundo que não é visitado,

Uma procura incessante (..)

E as sombras inquietantes

Sem piedade inclinam as flores

Rostos desfigurados e a saudade

Dos abraços de imperfeitos amores

Semblantes de brisa gélida, a manhã

De todos os dias e a noite que vem

Ela mesma fria também,

Oh silêncio, meu abusado amigo

Diz-me algo no calado do teu abrigo

Dissipa minhas mágoas, assim calado,

E, nas tardes cálidas não me abandones!

 

Ofélia Cabaço

 

2014-03-05


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Enseada

Aquela pedra grande

Tão pequena para o mar

Rodeada de conchas e pedraria

Confidente de tormentos e choros

Quieta, esbofeteada p´las ondas

Com muito para contar, segredos!

Sentei-me a seu lado, ouvi!

Uma gaivota a troçar, liberta,

Sobrevoava o imenso azul

A pedra murmurava o abandono

Desejava pertença de um dono

De todos, era ninguém

Disse-lhe não saber a quem pertenço

Esqueci-me de onde vim,

Sei apenas para onde fui,

Longe, longe, estou cansada

Não alcancei amor, morri no caminho

Deixei para lá um rio de lágrimas

A sede bebeu-o, morreram os nenúfares!

Ninfas desoladas,

Vou envolver-me numa lágrima, apenas!

Oiço o mar, saboreio o sal da vida,

Deixo-me pentear p´lo vento, carícias,

Encho minha alma com som de sereias

A pedra almofada no meu leito, ajeito-me!

Juntas homenageamos a Poesia,

Ao ritmo de baladas sonoras, as ondas

Abafadas sob longo abraço do mar

A pedra e eu, que nada sei de mim!

 

Ofélia Cabaço   2013-04.26

 

 

 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Éramos Três

Unidos os três

Os três palmilhamos léguas


Partilhamos a três dignidade


Amizade, afetos, cumplicidade


Um dia surgiu a piruças


Atenta, vigiava nosso canto


Risos, ironias subtis, os três,


Ao jantar, contos e conversas


Acontecimentos inesperados


Explícitos (…) por via do implícito!


Éramos três,


À roda da roda dos três,


Resoluções!


Momentos cinzentos, superados


Os três,


Viajaste num dia de chuva,


Choramos os três,


Prenúncio do futuro incógnito!


Teu quarto silencioso e o cheiro de ti,


Saudade!


Éramos Três


À mesa dois, os três!


Nos nossos corações timidez


Com receios de insensatez


Na noite ouvi barulhos em baixo,


Desci a escada, enfrentei,


Não era nada, ninguém como tu,


Subi apressadamente,


Escondi a cabeça somente


Conversei com deuses e fadas


Fiz o esforço do canto,


Éramos Três


Respirei fundo, a alma doía!


Senti saudades do teu café,


Da tua torrada com fé


Lembrei a minha cusquice


Naquele dia, curiosa, escutei


Na porta do teu quarto, tossi!


Esqueci-me que estava a cuscar


Abriste a porta num relance,


Eu disse - Olá!


Rimo-nos os dois, às lágrimas!


Tu serás sempre tecido de mim


És a mais bela flor do nosso linhal.


Foste o símbolo do meu viver!


 


 


Ofélia Cabaço, 2013-05-10





domingo, 26 de janeiro de 2014

Chuva Breve


A chuva na cidade, dançava teimosa

Pingavam gotas nos meus caracóis

Tocou minha face e sorriu

Vi o meu amor majestoso (…)

Sua mão acenou-me sem manha

A alegria libertou meus desejos

Então, doentios e sem ensejos,

Um emaranhado de borboletas

Adormecidas no palco do desencontro

Voaram de folha em folha ao encontro

Duma esperança tímida, quase obsoleta

A minha alma tomou frescura e amor

Arejada, aconchegou sonhos e cor,

Adormeceu na asa duma nuvem

Onde está o poeta? Fingido,

Esquecido!

 
Ofélia Cabaço    2013-06-04

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

ORVALHO

Encontrei arruinados castelos

Desejos e amores proibidos
Nas vidraças escorrem lágrimas
Jardins e alpendres chorosos
Ao longe, por cima da colina
Coches suspensos na bruma
Fuga de donzelas impacientes,
Boca grande de gigante branco,
Sussurros para além do firmamento
Suave música dum violino deixado
Junto à vergel pradaria de marcelas,
E as vidraças num contínuo choro
Brilham na noite como brancas salinas
E, ela, angustiada, no silêncio clama
A manhã que desce vestida de penas.


 

Ofélia Cabaço 
2013-08-02


 

domingo, 3 de novembro de 2013

Silhuetas

O céu dos Açores é azul
Casas brancas com janelinhas
Pespontam o mar da minha Terra
Barcas flutuam no mar azul
Sobrevoam gaivotas vestidas de tule
Tons brancos e cinzentos e as nuvens,
Asas e danças dali ao infinito
Silhuetas, sei lá de quem, vagueiam
O mar,
Ondas agitadas cegam olhares
As promessas incertas navegam
Decerto ficam a morar no firmamento
Envergonhadas como almas devedoras!
Nos vales dos céus, eu vivi um dia
Era imenso o espaço com açucenas e Paz
Havia um manto azul que me cobria
Também harmonia e o Deus capaz,
À porta do céu estava uma barca, alva,
Trazia mil silhuetas, sei lá quem eram,
Chuva de açucenas e asas imensas
Aromas e cânticos, seus prantos calaram.

Ofélia Cabaço


2013-11-01


 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A tua Voz

Queria tanto ser artista
Pisar o palco para ti
Contar emoções que senti
Nos sonhos em que foste altruísta

Fala meu amor, tu existes,
No meu palco nunca te ouvi
Oiço cânticos nas noites tristes
É a cotovia que me desperta

E o vento que me faz bater o coração
Sussurra, como quem me enlouquece!
Num retumbante de ilusões e quimeras
Aperto os lábios trémulos, recordação,

Minha alma desinquieta, a cismar
Oro à deusa dos rios e do mar
Peço-lhe cascatas das suas águas
Num turbilhão de sons e música

Canções cristalinas e lembranças tuas,
E a tua ausência que me torna tísica,
Passa por mim e a minha dor transporta
À noite dorme na soleira da tua porta

Como uma douda insiste na minha doudeira
As cortinas descem, no silêncio costumeiro
A tua voz balbucia palavras dissolúveis
Sozinha no palco como um romeiro,
Vislumbro caminhos voláteis.



Ofélia Cabaço


2013-11-02